10.8.13

Por que acontecem casos como o desta cínica eleição do presidente da CPI dos ônibus



Agora, na maior cara-de-pau, colocam para presidir a CPI dos ônibus um cara que não assinou o pedido pela CPI. Na verdade, dos 5 vereadores da CPI, 4 não assinaram. Tem gente lá, ocupando a Câmara de Vereadores, fazendo força para mudar isso. Apoio 100%, mas não sei qual a chance de conseguirem.

23.6.13

Tentando formar minha opinião: com ajustes, a tal PEC 37 parece uma gambiarra, mas que melhora a situação atual


Estive na Presidente Vargas na última sexta-feira e senti um incômodo difícil de explicar. Ao mesmo tempo em que sei pelo que protestaria e que sei da importância do povo ir pra rua mostrar que quer que as coisas mudem, eu tinha dificuldades de compreender o que exatamente estava sendo pedido e que direção aquilo estava tomando com tanta gente tentando puxar pra um lado ou pra outro - e aí não entendia bem se eu realmente devia ou não estar dando força praquilo ali, naquele momento. Quando a porrada estancou com a polícia perto da Prefeitura e eu comecei a sofrer com o gás e a correria, isso ficou bem mais palpável: por que mesmo eu estava encarando aquilo? Se é pra correr o risco de apanhar, seria bom ao menos saber o objetivo.

No meio do tal incômodo que ainda nem consegui digerir bem para entender como me sinto (o que tem a ver com o caráter de terapia de grupo que o negócio ganhou, né?), me dei conta de que, se não quero ficar à parte do debate neste momento exato, era bom entender o que é a tal PEC 37, que virou o tema da parada para muita gente: "PEC da Impunidade", todo mundo contra, competição pelo cartaz mais criativo sobre o tema. Só que eu já tinha visto aqui e ali no meu Facebook gente debatendo o negócio e não parecia tão simples assim.

E não é mesmo. Vejam que a OAB, por exemplo, é a favor do projeto.

(Vocês sabem, né? "A PEC 37 é a que tira o poder do Ministério Público investigar crimes" - o resumo mais utilizado. Em princípio, quem tem a função de investigar é a polícia mesmo; porém, há o argumento de que é importante o MP também poder atuar desta forma por ter mais independência em relação aos governantes, o que faria muita diferença especialmente em casos de corrupção dentro da máquina estatal. Tem uma porção de outras questões envolvidas nisso, mas vamos em frente.)

Fui atrás então de mais informações sobre a parada - uma das fontes foi o debate entre gente contra e a favor do projeto neste programa que dá pra assistir online. Andei também perguntando a amigos que trabalham no Direito o que achavam e alguns em que confio bastante estavam cheios de dúvidas, também sem saber se são a favor ou contra o treco. Isso, unido ao discurso cheio de certezas do Jabor e outros do gênero contra o negócio, já fez eu saber que o caso provavelmente estaria longe de ser daqueles que justificam todo mundo se indignar automaticamente.

Bom: hoje, depois de alguma leitura provavelmente ainda insuficiente, minha impressão é de que foi bom adiarem a votação e que é bem possível, até provável, no final eu torcer para que o texto definitivo da PEC 37 seja aprovado. Mas já sabendo que, na verdade, estamos discutindo em cima de mais uma gambiarra, algo enraizado na cultura brasileira.

O relator do projeto, deputado Fábio Trad, está comandando um grupo de discussão sobre o texto, com participação de membros do MP e das polícias, para chegar a algo mais consensual. Caminha-se para uma proposta em que o Ministério Público terá sim poder de investigar, mas definindo-se os tipos de crimes - a ideia é que a atuação seja em crimes como os de colarinho branco ou de organizações criminosas - e como estas investigações se articularão com as da polícia. Hoje a coisa está solta, há superposição no trabalho e, ao poder dedicar-se a qualquer tipo de crime, o MP acaba sempre escolhendo o que dá repercussão na mídia, seja por motivações políticas, seja por vaidade pessoal. O negócio é que ainda não se chegou ao texto final e havia sido pedido um pouco mais de tempo para isso, mas a intenção do presidente da Câmara era votar a proposta de uma vez mesmo assim.

Ou seja: parece ter sido bom o adiamento e parece provável que o que acabe indo à votação (se deixarem, já que com o rótulo colado de "PEC da Impunidade" estão fazendo pressão para que isso não aconteça) melhore a situação em relação ao que temos hoje. Só que, novamente, estão simplificando ao máximo o que se fala do assunto e estimulando as pessoas a simplesmente repetirem slogans fáceis como papagaios, sem entenderem exatamente o que está acontecendo.


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Disse que a PEC 37, seja você contra ou a favor dela, é na verdade uma gambiarra porque a questão pede uma mudança bem mais profunda. O sistema que existe no Brasil hoje para investigar e punir crimes só existe aqui, e vocês sabem o que se diz do que só existe aqui: se não é jabuticaba, é besteira. A gente sempre viveu nesta realidade e não se dá conta, mas na verdade o inquérito policial e a própria figura do delegado de polícia são coisas que basicamente não existem fora do país e poderíamos botar no bolo até mesmo a discussão sobre o fim da Polícia Militar, a partir de sua unificação com a Polícia Civil. Estou lendo ainda sobre isso e é algo que pediria um texto bem mais longo e de alguém mais embasado do que eu, mas vocês devem ser capazes de encontrar por aí gente boa para discutir o assunto.

É mais uma das grandes reformas que têm que acontecer, mas são adiadas por aqui indefinidamente e sobre as quais não parece haver qualquer interesse de discutir de verdade.

21.6.13

Tudo isso que aí está


O povo pediu por 20 centavos. Os 20 centavos vieram - mas em forma de cala-boca provisório, sem qualquer mudança real no sistema, e acompanhados da chantagem de que, para isso, dinheiro poderá ser tirado da saúde ou da educação.

Esta causa não está encerrada! Quem pediu pela passagem tem a responsabilidade de não deixar isso terminar assim.

- Imediatamente: abertura de canal de participação da sociedade na decisão de como será qualquer movimentação do orçamento para manter o preço da passagem de ônibus.

 - Cancelamento da licitação feita em 2010 para as linhas de ônibus e abertura de um processo de reorganização do sistema de transporte público - não é só ônibus o problema! - do Rio de Janeiro, com transparência absoluta e canais definidos para participação da sociedade no processo. Se é nessa que entramos, que entremos para resolver pra valer o problema e isso não vai acontecer sem mexer nos contratos. A lógica toda tem que mudar e o povo tem que ser ouvido para isso.

 - Criação de mecanismos de transparência para o cidadão comum poder enxergar com facilidade (não adianta só botar online num link meio escondido trocentas páginas de documentos técnicos!) o uso do orçamento público e implementação real do orçamento participativo na cidade.


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O que vi ontem, nas ruas, foi uma enorme maioria - centenas de milhares de pessoas - indo fazer terapia de grupo e extravasando sua insatisfação genérica contra tudo isso que aí está. Milhares de cartazes com as mais variadas frases de efeito e demandas; algumas isoladamente até justas, outras tantas rasas e pouquíssimo pensadas por quem as carregava.  Personificava-se a coisa nas cartolinas contra Feliciano e Renan e, nos gritos, contra Cabral, Dudu, Pelé e Ronaldo, fora a Copa do Mundo. Somos mesmo o país do futebol: brasileiro gosta muito de discutir escalação e acreditar que o problema do time se resolve só de trocar o treinador ou barrando o centroavante - quem dera fosse simples assim, tudo seria mais fácil. A impressão é de que ouvir psicólogos sobre o fenômeno talvez fosse mais interessante do que analistas políticos.

No meio, uma minoria usando a multidão para dar contexto a seus métodos violentos, usados sem direcionamento para qualquer demanda concreta. Afinal, invadiria-se a Prefeitura, por exemplo, em nome de que causa mesmo? Não estou muito a fim de servir como uma espécie de escudo para este tipo de coisa.

E, em volta, urubus tentando se aproveitar da situação para direcionarem o discurso da massa e usarem o clima de instabilidade a seu favor. Muito cuidado!

Vai às ruas? É nobre e muita gente precisava mesmo aprender e tomar gosto por se movimentar. Mas tente pensar no porquê - já estamos neste momento. Não torne-se um papagaio repetindo o que qualquer mascarado lhe repassou em forma de viral de YouTube. Você já conversou com algum amigo advogado sobre a tal PEC 37 para formar sua opinião sobre ela? Entende a função do presidente do Senado e sabe como e por quem seria escolhido seu substituto caso o atual deixasse o cargo? Não se deixe manobrar: suas causas têm que ser suas.


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Para além de tudo isso, surgem os bizarros e inaceitáveis relatos de pessoas muito próximas sobre a ação da Polícia Militar. Passei a noite vendo vídeos e lendo de gente mais que confiável o que aconteceu no IFCS, em Laranjeiras, na Glória, na Lapa.

Houve bomba jogada contra o Hospital Souza Aguiar e no teto do bar do Circo Voador. Houve bomba jogada dentro de vagão do metrô que acabava de se abrir, cheio de gente. Houve cerco a faculdades. Houve PM invadindo também com bombas delegacia da Polícia Civil que abrigava gente de bem que fugia de confusão. Houve gente que só tomava sua cerveja e foi sitiada dentro de bar. Houve gás e spray de pimenta invadindo apartamentos longe de "áreas de conflito". Houve veículo blindado com gente atirando a esmo de dentro. Houve bombas e tiros contra gente pacífica, de mãos para o alto, gritando "sem violência!". Houve DJ na Lapa e repórter no Centro tomando bala de borracha na cabeça. Parte disso está na mídia, grande parte não está, mas tudo isso aconteceu. Não se enganem achando que era simples "ação para preservar o patrimônio público" ou qualquer discurso semelhante.

Que máquina de repressão é essa? Que métodos são esses? Quem dá ordem para este tipo de coisa? Que porra é essa?

E aí, neste caso, é pra personalizar mesmo. A responsabilidade pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro é do governador. Alguma coisa tem que acontecer.

20.6.13

Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar: agora, como ir além dos 20 centavos?


"Deu certo": por causa do aumento nas passagens de ônibus, o povo foi às ruas protestar com força pela primeira vez em muitos anos e os governantes voltaram atrás. Prefeitos de diversas cidades, inclusive as duas maiores do país, já decidiram retornar aos preços anteriores. Foi uma demonstração de força do povo e tomara que ele tome gosto pela coisa.

Isto quer dizer que chegou-se a onde queria-se chegar com tudo isso? Não creio que seja o caso. É hora de colocar em prática, de forma consciente, o "não são só 20 centavos" de que muitos falaram. Só não acho que isso queira dizer perder o foco; quem pede tudo não está pedindo nada, pedir "o fim da corrupção" não tem nada de prático, falar só em "fora fulano ou beltrano" pressupõe que o negócio é só trocar X por Y... E há até que se tomar cuidado com o tipo de coisa que alguns tentam colocar no saco de protestos. Para a movimentação que estamos aprendendo a fazer seguir tendo resultados práticos, tem que saber o que se quer. Então: o que se quer?

Há muito contra o que se protestar e vai haver oportunidade pra muita coisa vir à tona. Mas fomos à rua agora motivados, antes de mais nada, pelo transporte público. Ótima causa, que afeta todo mundo, até quem só anda de carro. Pois baixar o preço da passagem em 20 centavos está longe, muito longe de resolver a questão. E é óbvio que é algo que, daqui a pouco, será revertido; o aumento vai vir, mais cedo ou mais tarde. Vejam:

Paes ressaltou que os reajustes na passagem estão previstos nos contratos com as empresas de ônibus. Segundo o prefeito, 45% dos custos da planilha são com a folha salarial de funcionários, como motoristas e cobradores. Além disso, justificou Paes, o preço do óleo diesel teve um aumento em torno de 22%. No cálculo dos reajustes são utilizados índices da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

— Os reajustes não são concedidos aleatoriamente. Depois de muito tempo, essa lógica é respeitada — justificou Paes, lembrando que as prefeituras de Rio e São Paulo deveriam aumentar o preço da passagem desde janeiro deste ano.

— O governo federal nos solicitou que fosse adiado este aumento — completou Paes, que não revelou por quanto tempo manterá este preço. 

Está claro que, na lógica em que funciona o sistema atual, o aumento vai voltar. O prefeito o adiou, mas a contragosto; não está mudando a forma como a questão é encarada e, ficando nisso, este recuo de R$0,20 será apenas um cala-boca temporário. Então, vamos lá: percebam que o que está sendo feito, de forma não-estruturada, é uma negociação entre povo e poder público. Conseguiu-se um primeiro avanço, apenas; é hora de ir em frente.

Eduardo Paes colocou na última campanha eleitoral como ponto positivo de sua administração a licitação que fez das linhas de ônibus da cidade. Só que foi algo que não só não melhorou nada em preços de passagens como não mudou trajetos os tornando mais racionais, não impediu que seguíssemos vendo coisas como motorista virando cobrador e precisando contar moeda enquanto engata a primeira marcha e, na verdade, manteve tudo nas mãos de quem já estava - ganharam um período de 20 anos, renováveis por mais 20, exatamente as mesmas empresas de sempre. Não parece ter sido por acaso; a companhia que opera os ônibus de Paris se interessou pelo processo, mas o abandonou no meio afirmando que, nas condições colocadas, era impossível fazer uma proposta séria. O Tribunal de Contas do Município contesta a licitação, por irregularidades múltiplas na documentação dos vencedores e indícios de formação de cartel.

E o negócio é que, se Eduardo Paes agora diz que os aumentos "são previstos em contrato", é baseado nesses contratos aí, feitos dessa maneira. Fica claro: o problema é o contrato! Se não mexer aí, nada vai se resolver de verdade.

Eis a que deve ser, pra mim, a primeira demanda: cancelamento da licitação feita em 2010 para as linhas de ônibus e abertura de um processo de reorganização do sistema de transporte público - não é só ônibus o problema! - do Rio de Janeiro, com transparência absoluta e canais definidos para participação da sociedade no processo. Se é nessa que entramos, que entremos para resolver pra valer o problema. A lógica toda tem que mudar e o povo tem que ser ouvido para isso.


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Mas o que as prefeituras estão falando agora é em tirar dinheiro de outras coisas para voltar aos preços anteriores. E aí, vejam vocês, fazem chantagem falando em saúde e educação. Peralá! Não é preciso nem entrar no assunto "obras para a Copa" ou mesmo na estrutura de preço das passagens pra perceber que tem algo errado: no último mandato aumentou-se enormemente o gasto em publicidade do governo do município, passando da centena de milhões de reais. Por que não mexer aí, por exemplo?

Aceitemos por um instante que no momento seja isso mesmo: enquanto não muda contrato, tem que realocar o orçamento pra não mexer no valor das passagens. Aí a questão é de definição de prioridades. E o Meu Rio tocou num belo ponto: orçamento participativo.

Se é tirar dinheiro daqui para colocar ali, esta é uma discussão interessante, da qual o povo tem que participar. Hoje, não é nada fácil enxergar em que está sendo investido o orçamento público, muito menos influir nisso. Na votação do orçamento 2013 do Rio, aprovaram que 30% do dinheiro (R$23,5 bilhões no ano!)  pode ser realocado do jeito que a Prefeitura bem entender.

O dinheiro é nosso e temos que saber e participar da decisão de como será gasto. Isso é o básico do básico! Eis uma boa segunda demanda nesta negociação, pensando de forma imediata: abertura de canal de participação da sociedade na decisão de como será a movimentação do orçamento para manter o preço da passagem de ônibus.

E, para algo permanente, o terceiro ponto: criação de mecanismos de transparência para o cidadão comum poder enxergar com facilidade (não adianta só botar online num link meio escondido trocentas páginas de documentos técnicos!) o uso do orçamento público e implementação real do orçamento participativo na cidade.


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A reação violenta da polícia fez muita diferença para turbinar o movimento. Muita gente que não se sensibilizou com a causa das passagens de ônibus foi pra rua para protestar pelo direito de protestar e contra a truculência de quem detém o monopólio do uso da força. Tá aí o segundo tema, outro que afeta enormemente a vida de todo mundo, em que poderia em seguida se concentrar a movimentação: uma enorme mudança na forma como funcionam nossas polícias.

26.11.12

É pro povo participar, então?


Aconteceu há pouco tempo a audiência pública sobre o processo de licitação do Maracanã. Depois de jogar no lixo todo o investimento feito no estádio nas obras para o Pan e gastar mais de R$800 milhões de dinheiro público na sua reconstrução, o governo pretende entregá-lo à iniciativa privada. No edital, estão previstas a demolição dos estádios de atletismo e natação – muito utilizados no dia-a-dia -, do Museu do Índio e até mesmo de uma das melhores escolas públicas do Estado, tudo para abrir espaço para estacionamento e lojas com que o futuro concessionário vai faturar. Não foram chamados para discutir o modelo de concessão os maiores interessados no futuro do Maracanã: os torcedores e os clubes. Tudo foi preparado com base em um estudo de viabilidade econômica produzido exatamente pelo favorito a ficar com a administração (e os lucros) do complexo do Mário Filho pelas próximas décadas: Eike Batista.



A audiência pública aconteceu em um lugar pequeno, fechado, em dia de semana no meio da tarde, horário em que todo mundo trabalha. Ainda assim, centenas de pessoas – índios, alunos da Escola Friedenreich, torcedores, sócios do Flamengo... – apareceram por lá para protestar. A postura do governo foi ignorar, fingir que tudo correu democraticamente e dizer que vai seguir sem mudar nada. Os que foram lá, afirmou um secretário do Estado, “são uma minoria”. Não merecem ser ouvidos.

Hoje, este mesmo Estado que faz questão de ignorar aqueles que querem se manifestar na questão do Maracanã resolveu chamar o povo a participar da vida política. Não, ninguém foi convidado a discutir planos, definir prioridades, nada disso. A ideia é ter uma multidão servindo de claque para uma “manifestação” pedindo à presidente Dilma que vete a nova lei dos royalties do petróleo. Para isso, ao contrário do que aconteceu no outro caso, resolveram facilitar a vida de todo mundo para aparecer por lá: ponto facultativo, ônibus e trem de graça, shows de artistas populares para atrair a galera.

Democracia é isso aí.


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Até me parece errado o que está sendo feito, tirando tanto dinheiro dos royalties dos municípios produtores para distribuir por todos os demais. Representantes dos outros estados se tocaram que eram maioria contra os do Rio e do Espírito Santo, cresceram o olho pra cima de tanto dinheiro – vai dar pra apresentar um monte de emendas ao orçamento com aquela grana, garantindo votos na molezinha construindo quadras, praças e pontes – e passaram a mão. Tem jeito de golpe mesmo.

Mas será que, com a quantidade de dinheiro a mais que pode vir do pré-sal, realmente era preciso tanto assim de royalties para compensar estes municípios produtores pelo impacto que sofrem com a extração do petróleo? Será que não dava pra dividir alguma parte menor com o resto? Como se faz esta conta, como se mede essas coisas? Aliás, como vem sendo gasto este dinheiro ao longo dos anos? Alguém me perguntou antes o que fazer com ele, alguém está me explicando agora o que foi feito? É possível entender porque os municípios que recebem estes recursos não vêm tendo retorno em melhora de índices sociais – saúde, educação e tudo o mais? Sinceramente, não sei.

Ninguém fala nada. A campanha para sensibilizar a população para a causa, em vez de procurar informar e dar argumentos consistentes para justificar a posição dos governantes do Rio, limita-se a fazer um terrorismo desinformativo. O governador ameaça não poder bancar as obras para Copa e Olimpíadas – quando é óbvio que estes eventos não correm o menor risco, é o tipo da coisa para a qual a União certamente apareceria com recursos em caso de emergência, como aconteceu em 2007 com o Pan. Na primeira página do Globo de domingo, foi publicado que haveria cortes no bilhete único, na merenda escolar e no orçamento da polícia, o tipo de coisa que incomoda qualquer um. Mas por que justamente nestas coisas? Quem definiu estas prioridades? O povo foi consultado? Será que não escolheria economizar em outras coisas?

Enfim: a causa dos royalties talvez pareça até correta. Mas o jeito todo como levam o assunto é tão errado que fica difícil comprar a ideia. E depois do tanto que desacostumaram o povo a participar da luta por seus direitos, vir agora comprar a adesão de todo mundo de forma tão baixa é complicado.

Mas sei lá, de repente a Dilma até veta, vai saber. No fim, essas coisas são sempre decididas como se não tivessem muito a ver conosco, mesmo.

24.10.12

Vueltas dan

Se não me engano, ouvi falar pela primeira vez do Alerta Pachuca pelo blog nunca mais atualizado de minha amiga Diana Gondim. Acho que ela tinha ido a Buenos Aires e visto eles tocando por lá. Achei legal e baixei alguma coisa na época.

Outro dia coloquei pra ouvir outra vez e me deu vontade de ver se eles tinham feito algo novo desde então. E aí fiz o download do último disco deles, Tasdanvuel, de grátis no site oficial. Recomendo!

Não sei qual o tamanho deles na Argentina, se fazem muitos shows, se costumam viajar pra tocar fora. No site oficial, no pequeno texto de apresentação, eles contam que se formaram em 2008 e que fazem em suas músicas uma "fusão latina". Tem coisas com vários climas diferentes, mas ouve essa aí embaixo e vê se gosta.




23.10.12

"Não basta votar. Agora, é hora de cobrar e fiscalizar". Falar é fácil!


A época de eleições é, com certeza, aquela em que vemos mais gente engajada em conversas - pessoais ou virtuais - sobre política. Quando passa a votação, muitos alertam: "só votar não é o bastante, agora é hora de continuar participando e de fiscalizar". Está certo. Mas como fazer isso?

Neste momento, por exemplo, estamos tendo as audiências públicas sobre o a lei que define o Orçamento da Prefeitura do Rio de Janeiro para o ano que vem. Ontem aconteceu na Câmara dos Vereadores a primeira, sobre Saúde, com a presença do Secretário Municipal da área. Hoje foi o dia da de Transporte e Meio Ambiente; amanhã é a vez da Educação. É importante, óbvio; é a hora em que nossos representantes estão discutindo o que vai ser feito com o nosso dinheiro durante todo o próximo ano.

17.10.12

Nomes e carreiras

Lembro de um episódio de Seinfeld, da época em que eles terminavam sempre em trechos dele fazendo seu stand up, em que ele comentava como alguns nomes já traçavam o destino de um garoto. A mãe que chama seu filho de Jeeves, por exemplo, já estaria escolhendo para ele a carreira de motorista (acho que era motorista).

Neste fim-de-semana, nos demos conta em uma conversa de que algo assim acontece com os Wellintons e suas variações com um l a menos ou um g a mais. Não lembro de ter conhecido pessoalmente nenhum Wellinton na vida. Mas os Wellintons jogadores de futebol estão por aí, espalhados, se multiplicando. São Paulo e Palmeiras têm um, o Fluminense tem dois (o Nem e o Carvalho, de quem eu não lembrava, mas o Uol me diz que existe), o Cruzeiro tem o Paulista. O Flamengo tem três: o zagueiro, o Silva e o Bruno. Em outras épocas, nós rubro-negros tivemos também o Whelliton, um quase-Wellinton de triste lembrança. No duro, só lembro de um Wellinton público que não fosse jogador de futebol: o Moreira Franco.

Quer dizer: se você colocar o nome do seu filho de Wellinton, a chance é grande dele ser jogador. Ou, vá lá, governador de estado. Não necessariamente será um bom jogador ou um bom governador, veja bem. Mas não deixam de ser carreiras promissoras financeiramente.


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O Veríssimo uma vez publicou numa coluna observação semelhante a esta sobre os Wellintons, só que citando os Donizetis que na época proliferavam. Mas houve também uma temporada em que, vejam vocês, o Flamengo começou a empilhar Andrés em seu elenco.

Havia o André Gomes, o André Paraná (que depois virou André Dias), o André Bahia e o Andrezinho. Eu me animei: compraria uniforme de treino e apareceria na Gávea, como quem não quer nada, me apresentando como "André, novo reforço". Ninguém estranharia e fatalmente eu mostraria que levava mais jeito do que os xarás. Infelizmente não coloquei meu plano em prático na época; se tivesse feito, talvez estivesse hoje mais próximo de uma vaga na Seleção que jogará a Copa de 2014. E, infelizmente, tenho que encarar a realidade de que esta próxima será minha última chance de jogar uma Copa, pois a idade está batendo.

De qualquer forma, a ideia ficou na minha cabeça por um tempo e serviu de inspiração para um texto que publiquei há uns anos no blog da FlamengoNet, que hoje até já tem outro endereço. É este aí embaixo, que estou resgatando só pra ter por aqui.


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Uh, uh, vamo invadí!

- Rapá, tive uma idéia pra conseguir ir a São Paulo ver esse jogo!
- Te falei que o Dão tá armando a van, o esquema dele tá bom...
- Não, já disse que tô zerado de grana, não rola. Eu vou é de grátis, no ônibus da delegação!
- Vai com o time? Como é que você vai conseguir isso?
- Espera só...

PRANCHETA – treino dessa terça
Destaque positivo:
Fernando Médio – A novidade no elenco foi uma grata surpresa. Belos passes, grande visão de jogo, tem tudo pra estourar o garoto! Muito futuro!

- Tá vendo? Tá vendo?
- O quê?
- “Fernando Médio”, sou eu!
- Ahn?
- Tem tanto cara novo lá, que eu tinha certeza que eles iam acreditar. Botei meu uniforme de treino, cheguei lá dizendo que era reforço e participei do rachão, amarradão!
- Mas... “Fernando Médio”?
- Já tinha o Fernandão e o Fernandinho... Eu sou o Fernando Médio. Achei que um Fernando a mais, um a menos, eles iam topar numa boa.
- E tu passou por jogador com essa barriga aí?
- Mole, mole. Eu joguei no time do Jônatas e do Obina...

Globoesporte.com: Caio Júnior tem dúvidas para o jogo com o São Paulo
O técnico Caio Júnior segue com o time indefinido para o jogo deste domingo no Morumbi. Com os novos contratados todos à disposição, ele diz ter dúvidas no meio e no ataque.

- O Éverton e o Sambueza podem entrar, assim como o Aírton. O Fierro ainda vai chegar também. E tem o Fernando Médio, tem treinado bem, pode ter uma chance. Vou levar a dúvida até o dia do jogo.

- Cara, na boa... Isso não vai dar certo.
- Claro que vai! E eu sempre te disse que, no dia que me vissem jogando com o Jaílton, iam ver que eu sou melhor que o cara. Vou ser relacionado, te falei que ia ao Morumbi!

Haloscan.com – Comments
 Olhei agora o site da CBF e o contrato do Fernando Médio continua sem aparecer lá. Será que vai ser regularizado a tempo? Ô diretoria, prestenção!
Jão Flamengão | Homepage | 09.09.08 - 2:31 am | #
Essa diretoria é incompetente demais. Kléber Leite, estou por aqui com você. Já deviam ter comprado o Fernando Médio. Ele vai estourar em outro time, chegar à seleção e a gente chupando o dedo. Já vi esse filme!
Téo Urubu | Homepage | 09.09.08 - 2:33 am | #

- Nem vem, mermão! Nem vem!
- Bicho, você é advogado! Sabe como é contrato! Monta um aí, eu levo lá, me regularizam, tá tudo certo!
- Bom... Se for pra você entrar no lugar do Jaílton, até vale a pena.
- Não, o Jaílton não sai mesmo. Eu tô disputando vaga com o Aírton e o Vandinho...
- Putz! Então não. E não vou falsificar documento mesmo, de qualquer forma. Depois você joga, descobrem, tiram ponto do Flamengo e aí já viu.
- Não se preocupe, eu não vou jogar. Só quero ver o jogo! Eu vou lá, “sinto uma contusão” na concentração, fico de fora e vejo a partida de tribuna. Só isso!
- Olha lá, hein...
- Ainda vou pegar mulé lá em São Paulo, tirando onda de boleiro!

LanceNet: Fernando Médio nem viaja para São Paulo

O volante Fernando Médio saiu ontem da concentração do Flamengo sem dar entrevistas. Mas fontes da Gávea confirmam que ele não deve mesmo enfrentar o São Paulo, neste domingo. A informação é que o jogador está sendo negociado para o Dinamo Treblinka, da Moldávia.

Fernando, 26 anos, não chegou a jogar pelo rubro-negro, mas vinha se destacando nos treinos. Um DVD com os melhores momentos do seu rachão de estréia chamou a atenção de empresários.

- Pô, cara... Moldávia?!?
- Eu sou profissional, tenho que pensar na família... A carreira é curta, sabe como é. Mas diz aí... Cê sabe se ainda tá sobrando vaga na van do Dão?

8.10.12

Não culpem o povo

Não sou comunista, nunca li Gramsci. Não sou militante do PSOL (embora nesta eleição tenha votado em Marcelo Freixo e na legenda do partido para vereador) e não tenho impressão nenhuma sobre o pessoal do partido que se elegeu em Niterói. Também não conheço a professora da UFF (e entusiasta do PSOL) Adriana Facina.

Isto posto: surgiu na minha timeline do Facebook o texto abaixo, que ela publicou por lá. Ao menos o ponto dela sobre a eleição de Eduardo Paes bate muito com o que penso:


Muito feliz com o resultado das eleições no Rio e em Niterói. PSOL ampliou muito sua bancada. Paulo Eduardo Gomes e Renatinho PSol foram os vereadores mais votados e ainda elegemos Henrique Vieira, que fez belíssima campanha. Teremos outra câmara em Niterói. Flavio Serafini despontou como nova liderança política, ganhando muito respeito, mesmo entre seus adversários. E, de quebra, ainda desbancou a campanha milionária do Zveiter.

No Rio, além de ampliarmos a bancada, elegemos Renato Cinco, com uma candidatura que traz o difícil tema do antiproibicionismo. Meu candidato, Mc Leonardo Apafunk, fez uma belíssima campanha, levando informação e debates fundamentais para nossa cultura. Marcelo Freixo se tornou agora um político com expressão nacional e tenho certeza de que sua trajetória está em franca ascensão.

Sei que muita gente está triste, pq não chegamos no segundo turno. Sobretudo aquela rapaziada que estreou agora na militância, nessa campanha tão bonita e inspirada. Para esses eu queria dizer algumas palavras.

Em primeiro lugar, não acreditem que a reeleição do Paes é fruto da burrice ou da alienação,ou mesmo da ignorância do povo. Nosso povo é sofrido e vota com o pragmatismo daqueles que matam um leão por dia pra sobreviver e dar de comer aos seus. Claro que existem os oportunistas, mas são minoria.

A desigualdade do tempo de TV, a campanha nojenta da mídia corporativa e antidemocrática, os rios de dinheiros fornecidos por empreiteiras e empresas de transporte, tudo isso conta. Mas conta mais o dinheiro no bolso, a promessa de emprego, as expectativas de oportunidades de vida. Essa pauta é mais relevante do que a das milícias ou da ética na política, por exemplo. E há uma lógica nisso que temos de reconhecer e dialogar com ela.

Pensem em Gramsci nos cárceres do fascismo, tentando entender a derrota comunista e, mesmo naquelas condições dramáticas, se recusando a dar respostas fáceis e elitistas. O comunista italiano, naquelas condições, afirmava o núcleo de bom senso do senso comum e trazia a máxima radical: todos são intelectuais.

Esse povo que hoje reelegeu o Pae$ é o povo com que faremos a revolução e não outro. É com ele que aprenderemos, é com ele que dialogaremos. Estamos em processo, na luta e com humildade tentando aprender com nossas derrotas. Como diz o grande pensador Carlos Walter Porto Gonçalves, o dia em que conseguirmos nos comunicar com aquelas subjetividades que se entristecem no domingo pq a segunda está próxima, marcando um novo ciclo de exploração do trabalho e de vida sem sentido, faremos a revolução.

Luta que segue. Temos agora a primavera nos dentes. Nada poderá detê-la.


É isso: fato é que Eduardo Paes é um prefeito popular. Quem está insatisfeito com sua vitória, e com o tamanho dela, precisa entender isso sem achar que acontece apenas por manipulação midiática, muito menos por burrice e alienação do povo. Há que se ter menos rancor, se fechar menos em sua própria lógica e compreender melhor os motivos disso. Aqueles que gostariam que a sociedade tomasse outros caminhos precisam se conectar melhor com as vidas das pessoas na hora de preparar propostas e discursos.

E é bom perceber que os outros não são obrigados a concordar com você, e de vez em quando, é capaz até de você estar errado. Na verdade, pra mim o grande foco, diante de tantas distorções que temos em nossa "democracia participativa", deveria ser mudar a política mesmo para aqueles que não têm a mesma opinião que a sua. As regras do jogo precisam ser outras, as formas de participar precisam ser outras.


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O Globo publicou uma lista de promessas de Eduardo Paes a serem cobradas até o fim de seu mandato. Estas aqui são as que eu mais gostaria de ver acontecendo:

- Garantir ensino integral para 240 mil crianças, tendo pelo menos 35% da rede neste regime.
- Transformar o Rio na melhor cidade do país no Ensino Fundamental.
- Aulas de inglês para todos os alunos do 1o ao 9o ano até dezembro de 2014.
- Garantir que 96% dos alunos da rede se formem no 2o segmento até os 16 anos.
- Dobrar a taxa de cobertura da rede coletora de esgoto tratado da Zona Oeste, alcançando o índice de 55%.
- Chegar a 450 km de ciclovias, com a implantação de mais 150km, integrando-as aos terminais de ônibus e ao metrô.
- Implantar UPP Social em todas as áreas pacificadas.
- Urbanizar cem comunidades levando água, saneamento e serviços essenciais.
- Integrar todos os meios de transporte ao Bilhete Único.
- Implantar o Veículo Leve sobre Trilhos no Centro, com sistema integrado ao metrô, aos trens e às barcas.
- Reduzir pela metade o tempo médio de deslocamento dos ônibus nos principais percursos do município com o Ligeirão, e em pelo menos 20% no sistema BRS.
- Alcançar a taxa de 60% de usuários de transporte público que usam ao menos um meio de transporte de alta capacidade (trem, metrô ou Ligeirão).
- Transformar as 33 unidades de administração regional em centros de atendimento ao cidadão.


4.10.12

A quem pretende votar em Eduardo Paes


Entendo quem vai votar em Eduardo Paes. Paes foi um prefeito realizador. O bilhete único era promessa antiga e finalmente foi posto em prática, o primeiro BRT já está funcionando. E, como é do grupo do governador Sérgio Cabral, dá pra colocar no bolo as UPPs e as obras em andamento para levar o metrô até a Barra, por exemplo. Vêm aí Copa do Mundo e Olimpíadas, o dinheiro para obras é muito e fica a impressão de que há coisas saindo do papel. Além do mais, a comparação que fica é com o mandato anterior, terrível, de César Maia. Não estamos pior do que estávamos.

Como falei, entendo. E sei que sempre haverá maneiras diferentes de ver a mesma coisa, não existe dono da verdade. Mas gostaria que quem está seguindo este caminho se dê a chance de olhar por outro lado e pensar um pouco melhor – ainda que seja para, no final, não mudar de opinião.

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A questão está na lógica que rege o tipo de política de Eduardo Paes – e ele é só mais um representante de algo bem maior -, que sempre vai fazer com que as coisas não aconteçam da melhor forma possível para todos. Não podemos nos acostumar com isso.

Por exemplo: há críticas à sua incrível coligação de 20 partidos, mas talvez muitos não entendam bem o que isso quer dizer. Os efeitos não se resumem a quase monopolizar o tempo do horário político; eles ficam pelo mandato inteiro. Esta união na base da geleia-geral é feita, óbvio, na base da troca de favores. Não existe convergência ideológica possível entre tanta gente tão diferente e assim são comprometidos verbas e cargos. Leiam este texto da veradora Andréa Gouveia, que não está tentando a reeleição e fez uma boa descrição de como funciona a nossa câmara de vereadores. No fim, a ideia é montar uma base tão larga que não só facilite a eleição, mas também possibilite ao Prefeito fazer depois o que bem quiser, sem qualquer oposição no legislativo.

Mas isso pode ser bom, pois facilita a “governabilidade” e possibilita que o Prefeito coloque seus projetos em prática. Certo?

Bem, acontece que Eduardo Paes tem, de longe, a campanha mais rica, algo que também é preciso entender o que significa. Na verdade, não há candidato no país que tenha recebido mais doações que ele - e 78% são ocultas, de gente que nem quer aparecer. Entre as que aparecem, estão somas consideráveis de construtoras; também sabemos que estão com ele empresas de ônibus. Ele diz que nunca conversou com seus doadores, e você pode tentar acreditar. Mas empresas como estas não são idealistas e pensam, é claro, em seus negócios. Vão querer determinados compromissos.

E é por isso, por exemplo, que Eduardo Paes promoveu em seu governo uma licitação de linhas de ônibus em que não se mexeu na lógica do sistema e, no final, todas continuaram nas mãos das mesmas empresas – apesar de ninguém nunca ter estado satisfeito com o serviço que vinha sendo prestado. Na verdade, a licitação permitia até que as próprias empresas definissem as propostas técnicas da operação, com a Prefeitura abrindo mão de exercer o planejamento urbano. E, hoje, o Tribunal de Contas do Município aponta irregularidades em quase todas as empresas vencedoras e vê indícios de formação de cartel. É o exemplo de conta de campanha que chega depois da eleição: é claro que os interesses privados destas empresas prevaleceram sobre os interesses públicos. E elas ganharam um contrato de 20 anos!

Assim como prevaleceram ao longo do governo os interesses privados de construtoras. Nos últimos quatro anos, os governos do Município e do Estado colocaram à venda diversos de seus terrenos para a construção civil. O batalhão da Polícia em Botafogo, por exemplo, perderá boa parte de seu terreno e, em seu lugar, devem subir novos prédios. Ao mesmo tempo, aprovou-se como nunca novas leis urbanas, todas elas autorizando prédios  cada vez maiores – é um estímulo a trocar construções antigas por outras mais novas e mais altas. Assim como na licitação dos ônibus, isso terá efeitos pelas próximas décadas. No trânsito, no meio ambiente, no mercado de imóveis.

Como se vê, a administração que é eleita com aquela forte ajuda de empresas acaba enxergando a cidade sempre do ponto de vista dos negócios – e não das pessoas.  Assim como a lógica dos negócios influenciou decisões no transporte e nas leis urbanas, também faz com que o governo privatize a gestão unidades de saúde públicas, fazendo com que entidades faturem com o dinheiro do Estado – e o Rio é hoje a capital brasileira com pior atendimento do SUS. Também faz com que projetos como o do Parque Olímpico removam moradores humildes, evitando que “atrapalhem” empreendimentos voltados para classes sociais mais altas.

Nada disso é decisão individual de Eduardo Paes; é a lógica da política atual. Mas é claro que quem a coloca em prática são políticos que não se prendem a convicções ideológicas e que têm facilidade para moldar seu discurso de acordo com as circunstâncias. O prefeito atual, por exemplo, atacou duramente a corrupção do governo Lula durante o escândalo do mensalão, afirmou que seu governo fez muito mal ao país e hoje fala orgulhoso do apoio do ex-presidente. Também já afirmou que César Maia foi o melhor prefeito que o Rio já teve, antes de começar a desdenhar da administração anterior:



Mas, além de falar sempre com desenvoltura sobre qualquer tema ou opinião, Eduardo Paes ainda conta bastante com o dinheiro que contrata os melhores profissionais para passar sua mensagem. Mesmo antes da campanha, ele já tinha consolidado sua imagem ao longo dos últimos anos usando o maior orçamento para publicidade que a Prefeitura do Rio já teve; de 2009 para 2010, por exemplo, o aumento foi de 4.400%. Não é surpresa, então, que ele tenha convencido tanta gente de que é a melhor opção e esteja perto de se reeleger em primeiro turno.

Para este tipo de coisa não continuar acontecendo, precisamos mudar as regras do jogo. Devemos passar da nossa atual democracia representativa – tocada por gente que não nos representa, devido a diversas distorções – para algum modelo de democracia participativa. Mas agora é o momento em que se escolhe quem vai, pelos próximos 4 anos, controlar o dinheiro de nossos impostos e tomar decisões que terão consequências por décadas.

A decisão está sendo tomada sem que a lógica da atual administração tenha sido realmente discutida, pela enorme diferença entre uma campanha e as demais. É importante que as pessoas possam ter, ao menos, a oportunidade de ouvir mais o outro lado, de maneira mais igual, para chegarem às suas conclusões.

Se você está decidido a votar em Eduardo Paes, eu só posso pedir que adie esta decisão. No primeiro turno, vote em qualquer outro – qualquer um, desde que não anule seu voto. Se dê a chance de pensar melhor, ouvindo mais argumentos, antes de resolver que quer mais 4 anos como os últimos. O segundo turno seria bom para todos. Inclusive os que, no final, decidirem que querem mesmo seguir como estamos.

1.12.08

Apresentando Don Robalo



O que vocês assistem aí em cima é um registro do primeiro ensaio gravado do Don Robalo, a nova banda em que estou tocando. Ainda falta um tanto para podermos apresentar nos palcos o que andamos preparando. Mas já dá pra mostrar alguma coisa.

Então, daqui pra frente, sugiro que vocês acompanhem o http://donrobalo.blogspot.com. Imagino que eu vá dar as caras por lá bem mais do que aqui. E podem ir seguindo também YouTube, Orkut, Fotolog e Twitter pra ver no que isso vai dar.

27.10.08

Pra cobrar depois

Depois eu escrevo sobre o que eu acho que representa esta quase-eleição do Gabeira, do jeito que foi. Já a vitória do Eduardo Paes, também do jeito que foi, tem tudo pra significar mais do mesmo - mais quatro anos sem esperança de que algo mude pra valer, seja na vida da cidade, seja no jeito de fazer as coisas.

Mas vamos torcer pra que eu esteja muito errado e o cara faça um grande governo. O Globo publicou em seu site uma lista das suas principais promessas ao longo da campanha. É guardar e cobrar. Seleciono aqui algumas, que gostaria muito de ver realmente saindo do discurso pra entrar na realidade:

- Implantar o bilhete único nos transportes públicos - ou seja, o sujeito paga uma passagem só e pode trocar de condução pra condução, dentro de um determinado período de tempo.

- Licitar as cerca de 400 linhas de ônibus do Município e reorganizar o sistema.

- Ajudar o estado a implantar a linha 4 do metrô, da Barra a Botafogo (orçada em R$ 1,2 bilhão). Ajudar o estado a implantar o novo trajeto da linha 2 do metrô, para evitar baldeação no Estácio.

- Implantar a nota fiscal eletrônica, que permite acompanhar on line a emissão de comprovantes que geram arrecadação de ISS. O sistema é um meio de aumentar a arrecadação sem subir impostos.

- Aumentar a rede de creches, triplicando o número de vagas. Oferecer 160 mil vagas nas pré-escolas, colocando todas as crianças de 4 e 5 anos.

- Usar clubes e áreas afins para atividades extracurriculares de alunos da rede municipal.

- Instituir aulas de reforço em todas as escolas municipais, contratar mais professores e investir em qualificação e remuneração.

- Ampliar o Programa Saúde da Família, que no Rio, hoje, tem cobertura de apenas 7%. Criar 60 consultórios de Saúde da Família, funcionando em três turnos.

- Colocar os postos de saúde abrindo às 6h e fechando às 20h, com plantão permanente de clínicos, pediatras e ginecologistas.

- Criar corredores iluminados nas áreas que concentram bares e restaurantes, como a Lapa. A Guarda Municipal combaterá os flanelinhas.

- Criar um sistema de acompanhamento orçamentário municipal pela sociedade. Discutir o orçamento cidadão, uma versão do orçamento participativo.

Se, ao fim do mandato, ele tiver realmente realizado metade disso aí, já estarei surpreso e satisfeito. Tentarei cobrar, do jeito que der.

De verdade, achei a campanha de todos muito fraca de idéias. Gostaria de ver algum candidato propondo uma descentralização maior da administração da cidade, que é grande demais pra ser gerida do jeito que é. Quem mora na Zona Sul e vai aos subúrbios do Rio tem a impressão de que viajou para outra cidade, tal a diferença nas calçadas, nas ruas, na sinalização, na falta de lixeiras, de iluminação, de tudo - e isso que nós, "da elite" da Zona Sul, já achamos que tá ruim por aqui. E, no fim, a gente tem que votar cada um com a impressão que tem do que acontece à nossa volta, com a enorme maioria não tendo idéia do que acontece em pontos mais distantes.

O ideal seria ter gestores de orçamentos para as diferentes zonas da cidade, e deixar a população apitar e cobrar o uso local de seu dinheiro através do orçamento participativo. Mas os aspirantes ao cargo preferiram se concentrar em um sem número de promessas pontuais, sem falar muito em mudanças mais estruturais na forma de administrar a cidade. Sem falar no chatíssimo debate direita x esquerda, que não faz o menor sentido entre as figuras que aí estão. Basta ver que nosso prefeito eleito teve o apoio, ao mesmo tempo, de "comunistas", de gente do partido do Maluf e da filha do Roberto Jefferson.

Gogol Bordello no Tim Festival

Andaram complicados os últimos dias. De algumas coisas ainda escrevo aqui - outras, deixa quieto. Mas vou começar falando do que foi bom: Gogol Bordello, sábado, no Tim Festival.

O show foi exatamente a concretização do que eu esperava: uma anarquia no palco, com gente correndo de um lado pro outro, duas dançarinas/backing vocals com roupa de axé music, um acordeon - tudo acontecendo, em movimento, sem interrupção. E muita gente pulando em frente ao palco, com o chão vibrando embaixo dos nossos pés o tempo inteiro. Esse negócio de internet é coisa de louco mesmo. Como é que tanta gente assim conhece os caras, que não tocam em rádio, não aparecem em TV, nem são lá muito hype de blogueiros e críticos em geral? Olhaí, até já pensei num link disso aí com um texto próximo sobre as últimas eleições.

O Gogol é a celebração da mistura - algo que ficou lugar-comum em discursos de tudo que é banda por aí (até banda emo hoje em dia diz que tem influências de tango a MPB), mas que poucos colocam em prática com a profundidade, e de maneira tão orgânica, quanto eles. São herdeiros legítimos de uma linhagem que remonta ao Clash e passa pelo Mano Negra - a antiga banda de Manu Chao, que juntava imigrantes na França para misturar americalatinidades (e mais) ao punk na Europa. Agora, Eugene Hutz leva os ciganos e os bálcãs à Nova York, mas no fim a idéia é a mesma. Não à toa, tocaram lá pro fim do show Mala vida, do Mano Negra, pra deixar explícito o parentesco.

Uma pena o som ter ficado emboladaço como ficou - ingresso caro pra cacete, podiam gastar um tantinho mais da verba nisso aí.

Aproveitei pra testar por lá a camerazinha do meu celular. Ainda não vi como fica na tela do computador - quando der, coloco por aqui. Mas dêem uma olhada neste vídeo que peguei no site de O Globo - reparem no barulho que vem dos pulos da galera sobre o piso colocado na Marina da Glória.


24.10.08

Domingo

Ainda no primeiro turno, O Globo fez uma série de entrevistas com os candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro. A Eduardo Paes, perguntaram qual o seu time. Ele riu, sem graça. Disse que é Vasco, mas adora a torcida do Flamengo, admira o Fluminense, ama o Botafogo.

Fez média. Vale a comparação com César Maia - que, por coincidência, foi seu mentor político. César diz que ele é Botafogo, mas o prefeito é Flamengo.

É típico. Esta questão futebolística pode parecer uma bobeira, mas é um sintoma de um tipo de político que faz a festa por aqui desde que Cabral chegou. É o cara que faz média pra ficar bem com todo mundo, faz acordos, faz de tudo que for preciso para se manter perto do poder. A única idéia por que luta é a de estar no governo. Não é à toa que está hoje no PMDB, partido que foi governo com FHC, é governo com Lula, foi governo com Garotinho (lembrem disso!), é governo com Sérgio Cabral.

Gabeira, ao contrário, é um cara que nunca teve medo do confronto. Você pode não gostar de suas posições, mas não pode negar que ele as têm, e briga por elas mesmo quando são perigosas ou até impopulares. Toma a linha de frente pra legalizar a maconha ou a prostituição. Participa de resistência à ditadura, coloca o dedo no rosto de um Severino. Sai de um partido justo quando ele chega ao governo, por não concordar com atitudes e posições.

Quando se colocou a idéia de sua candidatura, Gabeira disse que aceitava com algumas condições: a de fazer uma campanha que não sujasse a cidade; a de prestar contas de todos os gastos da campanha (o que faz, online); e de não ter que negociar cargos por motivos políticos para montar alianças - os escolhidos para cada secretaria seriam técnicos, gente competente, os melhores para os cargos. Pode ser só um discurso bonito, e difícil de imaginar sendo posto em prática, num meio tão cheio de politicagem. Mas o seu passado indica que, se alguém seria capaz de encarar isso, de ser independente, de remar contra a maré, poderia ser ele. Pode ser uma decepção depois, mas dá pra encontrar motivos para fazer essa aposta.

Pra ser sincero: a sua campanha, em termos de propostas, me decepcionou um tanto. Não surgiu nada particularmente mais interessante do que os outros falam. Em termos de planos divulgados, os candidatos foram todos muito parecidos - inclusive Paes e Gabeira. Aí, a escolha fica entre quem parece mais confiável pra tentar mudar alguma coisa. Para agir de uma maneira nova.

Paes é mais jovem. Pode, por isso, ter uma imagem mais moderna, de novidade. Mas é, na verdade, um representante do antigo - aquele em quem não dá pra acreditar, porque o que diz hoje não quer dizer nada amanhã. É quem muda de partido pra partido pra partido, em busca da melhor posição, do melhor cargo. É quem procura os holofotes quando "a boa" é chamar Lula de chefe de quadrilha, e depois corre para o outro lado, quando "a boa" é posar ao lado do presidente popular. É quem tenta colar o adversário ao César Maia, depois de ter aparecido na política justamente sendo criado pelo cara, no governo dele, como seu sub-prefeito. É quem coloca em uma eleição a Cidade da Música como uma de suas realizações em panfleto de campanha, e na seguinte aponta a mesma obra como grande erro e joga a culpa pro lado dos outros.

Não caiam nessa.

16.10.08

Sobre debates

"Foi um excelente debate por dois motivos. Primeiro, porque as regras permitiam que um respondesse ao outro diretamente. Segundo porque Bob Schieffer, o moderador, souber cortá-los quando necessário e fez perguntas instigantes, desafiadoras. Talvez seja justo dizer que houve um empate. No fim das contas, Obama só tinha uma missão. Não parecer derrotado."

Esse é o comentário do Pedro Doria sobre o debate de ontem entre McCain e Obama - que eu não vi, fiquei perdendo meu tempo com Dunga e companhia. Mas me lembrou do que eu pensei durante o debate entre Gabeira e Eduardo Paes, na Bandeirantes, domingo passado: como é mala o formato desses trecos por aqui.

É tudo engessado, tudo com cronômetro rolando, tudo contado. Corta-se o áudio pra não deixar uma resposta ser completa. A gente vê que há mais assunto em uma discussão, mas ela acaba mesmo assim. Um não olha pro outro. E, no meio, um mediador que sempre parece um robô, repetindo regras a cada 10 minutos. A gente já não gosta de ler manual de instruções de nada - imagina ouvir um sendo lido em voz alta repetidamente. A coisa parece um jardim de infância, em que alguém tem que ficar de olho nas crianças o tempo inteiro pra não fazerem besteira - se deixar solto, sabe lá o que esses moleques vão aprontar, né?

O formato americano não tem nada a ver com isso. Ninguém corta o áudio, não tem réplica, tréplica, pedido de direito de resposta, "você tem 2 minutos". A coisa parece até um debate mesmo, uma discussão de idéias, um pergunta, o outro responde, o jornalista no meio tira dúvidas em cima das respostas.

Na última eleição pra presidente, a Globo apostou em um formato mais próximo a isso no segundo turno, com o Bonner servindo de moderador. Podiam tentar de novo pra esta eleição pra prefeito.